Números de furtos e roubos no primeiro trimestre em SC foram os maiores dos últimos sete anos

Há sete anos o Estado não tinha um começo de ano com índices de violência tão altos. O número de roubos aumentou 141% em comparação com o primeiro trimestre de 2010, quando os números também estavam em alta. O crescimento em furtos entre janeiro e março foi de 17%. Nas mortes violentas, a tendência de aumento continua. No primeiro trimestre de 2017, foram 314 assassinatos em todo o Estado, contra 234 no mesmo período de 2010. O lado positivo das estatísticas fica apenas nos latrocínios, que são roubos seguidos de morte, nos quais foi registrado o menor índice no primeiro trimestre, com 14 casos.

Os números se refletem na sensação da população catarinense. Assustados com o crescimento dos assaltos e latrocínios, os moradores do bairro Comasa, em Joinville, se mobilizaram nos últimos dias. Em um salão lotado, 300 pessoas cobraram das polícias e do poder público uma reação. No dia 18 de abril, Julio Cezar Vieira, 22 anos, foi morto durante um assalto.

Ele era o proprietário de uma panificadora que já tinha sido alvo de bandidos em outras oportunidades. Na última vez, Julio Cezar reagiu e foi morto. Em audiência pública, os representantes da Polícia Militar (PM) e da Polícia Civil prometeram se empenhar. Para o presidente da Associação de Moradores do Comasa, Valmir Xavier, o trabalho das duas corporações é exemplar, mas o que falta é apoio do governo do Estado para aprimorar o efetivo policial.

A reportagem do DC enviou ao secretário de Segurança Pública do Estado (SSP), César Grubba, perguntas sobre o aumento nas estatísticas e os índices do primeiro trimestre. Sem responder a todos os questionamentos, via assessoria de imprensa, a SSP não explicou os roubos, preferiu falar sobre as prisões. Segundo a assessoria, foram 75 mil procedimentos abertos nos três primeiros meses, além de “aumento na apreensão de armas e drogas”. A secretaria alega que não tem “capacidade de impedir a vontade do ladrão de roubar e que a polícia é um exemplo de eficiência”.

Sobre os números trimestrais, a SSP enviou dados sobre os roubos de 1o de janeiro até 15 de maio quando, em comparação com o mesmo período de 2016, houve uma queda de 58 casos. A reportagem solicitou os dados dos mesmo período entre 2010 e 2017 e também de furtos, mas não recebeu retorno.

Entrevista: Leandro Gornicki, presidente da Comissão de Segurança da OAB

Nos últimos dois anos os furtos e roubos, além dos homicídios, vêm crescendo em SC. O que precisa ser feito, na sua opinião, para reduzir esses índices?
A criminalidade patrimonial não é um problema exclusivo de um Estado ou de um Município. Trata-se de um problema nacional interligado a vários fatores, merecendo destaque a adoção, nas últimas décadas, de políticas absenteístas no campo social, promovendo grande fragmentação dos laços de solidariedade, estimulando uma frenética competição entre os indivíduos e, consequentemente, a exclusão de condições adequadas de vida de grandes contingentes populacionais, que passam a representar um perigo a ser neutralizado. A redução da criminalidade depende da mudança nas políticas públicas: a) redução da sanha punitiva; b) redução da população prisional; c) investimento em áreas sociais; d) alteridade (responsabilidade pelo outro); enfim, e) sair da racionalidade neoliberal.

Qual sua avaliação da estratégia de segurança do Estado?
Independentemente de qual seja o governo e a esfera de poder, o senso comum orbita em torno das ideias de maior rigor punitivo e aumento do aparato policial, ou seja, repressão. Isso não funciona! O efeito dissuasório esperado pelo emprego de penas maiores não é alcançado, sendo inúmeros os exemplos históricos do fracasso do controle da criminalidade pela simplória ideia de intimidação. Veja os casos de tráfico de drogas, homicídios, roubos com resultado morte, estupros etc. As alterações legislativas e o incremento do aparato policial não promovem qualquer mudança em matéria de segurança pública. Mas colocam em risco o desenvolvimento da democracia no país. Jamais houve diminuição da criminalidade pela via punitiva. No extremo, constata-se o fracasso da repressão e passa-se à ideia de extermínio daqueles que são considerados inimigos. Eis uma das razões para se ouvir tanto falar que “bandido bom é bandido morto”. É preciso reconhecer: não há como controlar, em tempo integral, milhares ou milhões de pessoas concentradas em grandes cidades.

A SSP alega que tem feito prisões. Somente isso resolve?
Nunca se prendeu tanto! Somos o país que mais prende no planeta e continuamos aumentando a nossa população prisional. Ocorre que é notória a falta de recursos e isso impede a contratação de novos agentes de Segurança Pública. É preciso ter consciência de que o aparato policial jamais será onipresente, por maior que seja o efetivo.

 

Fonte: DC


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