Chape de Mancini estreia na Liberta

Assumir a barba marcada por fios brancos depois de 50 anos de cara limpa foi a mais fácil das decisões de Vagner Mancini em 2017. Por mais que a discrição seja uma característica evidente, reinventar o próprio visual não foi nada perto do desafio assumido há exatos 60 dias. Imagine reinventar a Chapecoense? Logo a Chape, queridinha do Brasil. Trabalho que teve início em 6 de janeiro justamente de olho nesta terça-feira, o dia da estreia na Taça Libertadores da América, diante do Zulia, às 21h30 (de Brasília), no Estádio Pachencho Romero, em Maracaibo, pelo Grupo 7.

Depositar a pressão do sucesso do trabalho no confronto com os venezuelanos é um exagero evidente. Por outro lado, é inegável quão emblemática é esta partida. A Libertadores é o elo entre o time atual e o vitimado em 29 de novembro. Esses jogadores só estão aqui pelo que aqueles fizeram. E Mancini não tem dúvidas ao apontar que, na cidade que fica a praticamente 1.000km de Medellín, a nova Chape tem a oportunidade de consolidar sua nova história.

– Vamos ter que voltar a esse tema (acidente), mas com maturidade, sabendo muito bem o que falamos… Temos um grupo novo de trabalho, que quer construir sua história. É importante delimitar o que já passou e aquilo que vai ser vivido. Vamos escrever a nossa própria história (…) Quero uma Chape que o adversário olhe e sinta frio na espinha de jogar contra. (Um time) chato, que marque forte, tenha velocidade e saiba da importância da posse de bola.

Em 20 minutos de conversa no hotel onde a delegação está hospedada em Maracaibo, o agora barbudo treinador passou a limpo os dois primeiros meses de trabalho, apontou pontos positivos, admitiu fraquezas e traçou metas realistas para temporada. A preocupação em construir uma Chapecoense que olhe para frente segura de suas convicções é nítida. Uma Chape que se estabeleça, mesmo reinventada. Bem diferente da nova barba, como o próprio já avisou:

– A qualquer momento, pode sair (risos).

Confira todo bate-papo com Vagner Mancini:

Como a Chape entra nessa Libertadores, como azarão ou em igualdade de condições?

– Em igualdade. Sei que há o campeão argentino de um lado, o campeão uruguaio do outro, o Zulia que é um pouco desconhecido, como era a Chape anos atrás. Mas temos a possibilidade de fazer grandes jogos pelo que vejo da minha equipe e do futebol. Quando se é competitivo, é possível jogar contra os maiores do mundo, desde que se tenha a concentração necessária para neutralizar o adversário e surpreender. Isso está aberto para qualquer equipe.

De tudo que você imaginou há dois meses, a Chape estreia acima, abaixo ou dentro do esperado?

– Sinceramente, esperava que chegasse nesse nível de jogo. Lógico que não é o ideal para estrear em uma Libertadores. Ainda temos pouco tempo para imprimir um ritmo de jogo bom, mas, acima de tudo, evoluímos muito do início do ano até agora. Isso me faz acreditar que podemos fazer um bom campeonato. Vejo estrear fora como melhor do que em casa nesse sentido. A cobrança por resultado ia nos atrapalhar e podemos montar uma boa estratégia para o jogo diante do Zulia.

É possível pontuar o que andou mais rápido ou mais lento nesse processo?

– A parte técnica, o atleta rapidamente consegue voltar. A parte tática demora um pouco mais pelos aspectos individuais que se convergem em um coletivo. É um time que ainda oscila muito dentro dos jogos, o que é algo que será corrigido com o tempo. O que foi determinante para evolução rápida foi a amizade. Temos um grupo de jogadores descontraído, mas, ao mesmo tempo, focados dentro do jogo. É um amadurecimento de grupo. Não é só descontração, nem só tensão. Isso é um grupo maduro.

Vagner Mancini técnico da Chapecoense Libertadores (Foto: Cahê Mota)
Mancini que Chape com posse de bola e velocidade na estreia (Foto: Cahê Mota)

A Chape buscou reforços no mercado para Libertadores e não conseguiu. Até que ponto, são peças que farão falta?

– São dois pontos. Faltam peças realmente, e essa não é uma visão só nossa. Vamos buscar sempre melhorias técnicas. Mas, por outro lado, não é simplesmente sair no mercado e ir buscar o jogador. É importante analisar o que o atleta vai te dar dentro e fora de campo. Chapecó é uma cidade menor, é importante que o atleta se socialize. O perfil conta muito. Diante de todo esse filtro, temos que achar o cara ideal para vir e melhorar. Não é fácil. Esbarramos em questões financeiras ou no atleta ter outras opções. No futebol, você sempre está buscando alguma coisa.

E como é a Chape que o Vágner projeta para o ano? Qual o estilo de jogo?

– Um bom time de futebol tem que ter posse de bola, velocidade, ser vertical, mas também tem que saber dosar. É preciso se adaptar e fazer uma boa leitura dos adversários. No Catarinense, muitas vezes pegamos rivais muito fechados. Na Libertadores e em outros campeonatos, vamos encarar adversários que serão até mais ofensivos do que nós. No início (do ano), acentuamos muito o jogo em Rossi e Niltinho. Quando não se tem um padrão tático definido, há uma tendência de usar a individualidade. Hoje, já sabemos que temos que fazer a bola girar. Temos laterais que apoiam bem e, se verticalizar muito, perdemos essa subida, o homem surpresa da chegada na área. É a evolução que tem acontecido gradativamente. Quero uma Chape que o adversário olhe e sinta frio na espinha de jogar contra. Chato, que marque forte, tenha velocidade e saiba da importância da posse de bola.

Como lidar com toda pressão natural por resultados, mas também a necessidade de paciência pela reconstrução?

– Falamos bastante entre nós. Jogar tudo na mesa também é um treino, vivenciar aquilo que quem olha de fora talvez não consiga enxergar, além de não ter que usar desculpas. O mais importante é ter a convicção do que está sendo feito. Seja no momento difícil ou na alegria, estamos convictos de que o time pode melhorar. Isso gera uma confiança grande. Quando se tem um grupo seguro do que quer, disposto a viver aquilo, aprendemos muito. O equilíbrio emocional está muito definido dentro do vestiário. Fazemos dinâmica de grupo, tocamos em alguns assuntos, pedimos que os atletas falem, e isso faz com que todos tenham a mesma visão.

Tudo isso passa por deixar o acidente no passado, mas aí você chega na Venezuela e volta tudo…

– É normal. Estamos em um outro país, onde as perguntas ainda não foram feitas. Respondi muita coisa sobre o acidente que já foi superada no Brasil. Mas é normal e hoje já estamos mais aptos a falar sobre isso. Acaba passando um parâmetro importante para nossa conduta. Vamos ter que voltar a esse tema, mas com maturidade, sabendo muito bem o que falamos. Temos um grupo novo de trabalho, que quer construir sua história. É importante delimitar o que já passou e aquilo que vai ser vivido. Vamos escrever a nossa própria história.

Em tudo na vida, a cobrança vem em cima da expectativa. Então, o que a Chape busca em 2017? Até que ponto há obrigação de vencer e até que ponto o que vier é lucro?

– Não podemos falar nada além da realidade. É uma Libertadores que o clube sonhou por muito tempo. Passar a fase de grupos seria muito importante, geraria uma satisfação enorme diante de todas as dificuldades já encontradas. No Estadual, ficamos em segundo no turno e vimos que dá para brigar em igualdade de condições. Na Recopa, já estamos em uma final e tudo pode acontecer. Na Copa do Brasil, espero não disputar, o que significaria chegar longe na Libertadores. E o importante no Brasileiro é a manutenção na Série A. Não dá para cobrar nada além disso por ser o campeonato mais difícil. São 38 jogos, 19 adversários de alto nível. Então, é importante manter para realmente continuarmos essa construção, tanto financeiramente quanto no aspecto de conceitos.

Por fim, queria que você explicasse esse estilo novo, essa barba…

– (Risos) Estou deixando. Quis dar um descanso para pele, que estava irritada. Fui deixando, fui vendo, gostei e achei que era hora de mudar o visual, mas a qualquer momento ela pode sair (risos). Até porque, em 50 anos nunca tinha deixado, mas é bom mudar uma hora ou outra. Você muda o visual e chama a atenção. Muita gente tem falado sobre isso, mas uma hora vai ter fim.

Zulia x Chapecoense

Data e local: 07/03/2017, em Maracaibo, Venezuela
Estádio: José “Pachencho” Romero
Competição: Taça Libertadores da América, Grupo 7
Provável escalação: Artur Moraes, João Pedro, Nathan, Grolli e Reinaldo; Moisés Ribeiro Moisés Gaúcho e Luiz Antonio; Niltinho, Túlio de Melo e Arthur Kayke
Arbitragem: Omar Ponce, auxiliado por Luis Veras e Juan Macias (todos do Equador)
Transmissão: O Sportv transmite a partida com narração de Jader Rocha e comentários de Raphael Rezende. O GloboEsporte.com acompanha todos os lances em Tempo Real.

 

Fonte: Globo Esporte


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